Investigo as relações entre criação, técnica e ritual por meio de uma imersão etnográfica centrada no chamado “boi de encantado”, expressão presente na festa do bumba meu boi do Maranhão (Brasil). Analiso as técnicas de criação de pessoas e coisas mobilizadas na feitura da festa, atentando para suas dimensões cosmológicas e ritualísticas. Tomo como eixo analítico o boi — personagem central da brincadeira, concebido como um ente híbrido e artefatual — e o miolo — pessoa que se torna medula no interior de seu corpo —, examinando a configuração boi-miolo-espírito, especialmente nos casos em que entidades espirituais vinculadas aos terreiros de encantaria figuram como donos do boi e participam da dinâmica da festa por meio da incorporação. Ao acompanhar os deslocamentos desse ente híbrido pelas ruas, busco compreender como humanos e não humanos participam da criação de relações, corpos e materialidades, contribuindo etnograficamente para os debates contemporâneos sobre técnica, ritual e corpo na teoria antropológica.