Esta tese é uma investigação etnográfica sobre as visagens que habitam o Centro Histórico de São Luís, capital do estado do Maranhão. Em uma paisagem composta por edificações tombadas como patrimônio em diferentes instâncias públicas, o centro histórico da cidade configura-se como um repositório de memórias que remonta à sua fundação como colônia portuguesa e às suas transformações ao longo do tempo. Na região central de São Luís, há uma extensa variedade de relatos sobre as visagens, termo corrente no nordeste brasileiro para designar presenças percebidas de modo multissensorial - que podem assumir diferentes formas, incluindo a forma humana, a de animais, vultos e sombras. Ao longo desta tese, defendo que as visagens constituem presenças indefinidas e dinâmicas, indissociáveis da materialidade dos casarões históricos, que destacam uma cidade ontologicamente anacrônica, onde coexistem diferentes tempos e modos de existência. A pesquisa mobilizou documentos variados; a etnografia, de seu lado, concentrou-se em relatos sobre diferentes modos de manifestação das visagens, bem como nas relações que elas estabelecem e que as constituem, a partir da perspectiva de trabalhadores locais, moradores e transeuntes. As visagens são criadas e criadoras: promovem performances narrativas, ampliam repertórios sensoriais, estabelecem relacionamentos com espaços físicos e temporais, pessoas e substâncias. Partindo dessa premissa, a tese concentra-se nos efeitos que elas produzem, evidenciando o caráter desestabilizador dessas presenças, que interpelam o passado colonial escravista, presente ativo na ocupação do centro da cidade. A pesquisa contribui assim, entre outras coisas, para lançar uma perspectiva renovada sobre o patrimônio que atualiza memórias históricas
Fazer visagem: uma etnografia sobre modos de existência no centro histórico de São Luís
Gabriela Lages Gonçalves
Ano
2026